Título Original: The Passion of the Christ/Gênero: Drama /Duração: 126 minutosAno (EUA): 2004/Direção: Mel Gibson/Roteiro: Mel Gibson e Benedict Fitzgerald/Produção: Brce Davey, Mel Gibson e Stephen McEveety/Música: John Debney/Fotografia: Caleb Deschanel/Figurino: Maurizio Millenotti/Efeitos Especiais: Keith Vanderlaan's Captive Audience Productions
Este texto é o trecho de uma carta de um leitor da Revista Eletrônica ContraCampo a um dos seus críticos Eduardo Valente.
Eu compreendo que você não queira entrar no aspecto teológico do filme de Gibson – embora só o compreenda na medida em que isso geraria uma polêmica que você não poderia sustentar por não ser especialista em teologia. Na verdade, nem precisa, pois a teologia gibsoniana é de uma infantilidade a toda prova. Por isso mesmo, fiquei um pouco desorientado pelo seu texto porque, imaginando encontrar nele uma abordagem estética e cultural (e não teológica), ele me pareceu muito pouco crítico sob estes pontos de vista. Aquilo que você sugere ver como indícios de uma estética cinematográfica de nível ("métodos clássicos da linguagem cinematográfica – como inúmeros planos ponto de vista encarnando o olhar de Cristo, ou a centralização dos flashbacks em momentos de lembranças claramente dele") eu me sinto inclinado a considerar como um manejo ingênuo e primário de montagem, cuja única proeza é – numa dialética teológica extremamente rudimentar, apoiada num roteiro que quer eliminar toda contradição, ironia e implausibilidade dos Evangelhos (textos nos quais o filme se apóia ou se diz apoiar) – a de se congelar em pólos narrativos binários (seqüências intermináveis de "porrada na cara & flashback", "tortura & flashback", "espancamento & flashback", "sangue, muito sangue, cada vez mais sangue & flashback"), onde se tentaria construir uma dimensão histórica fiel da economia dos acontecimentos. De um binarismo tão tosco e sem colorido que chega ou à irritação ou simplesmente ao tédio absoluto. Gostaria, portanto, de colocar algumas questões suscitadas pela sua defesa do filme. Inicialmente, o mais grave, a dialética da montagem – o termo é velho, mas é exatamente isso que Gibson constrói com o roteiro. O uso irritante dos flashbacks só se explicaria, e se justificaria teologicamente, como a ligação direta entre as palavras eucarísticas de Jesus aos seus discípulos e o advento do Cristo flagelado pelas mãos do homem – o que, de certa forma, do ponto de vista da cristologia mais rasteira que se possa conceber, é o óbvio ululante. Por isso mesmo, o olhar final de Maria para a câmera, "acusando a humanidade", que você aponta no filme como algo pedagogicamente positivo, vem coroar não o sucesso ou força dessa teologia, mas o primarismo melodramático da direção e do pensamento cristológico de Gibson, bem como a cena final de Jesus – transfigurado em Cristo, limpo das feridas e do sangue, belo e impoluto no sepulcro banhado pela diáfana luz do sol, ontologicamente acordado pela música coral-transcendental de gosto extremamente duvidoso – não reflete nem faz refletir nenhuma salvação da espécie humana mas o velho e insuportável fecho-de-ouro, tipicamente hollywoodiano: finalmente o herói, depois de todas as provações e para além de todas as conseqüências lógicas do roteiro, sai vivo e pronto para seu glorioso destino futuro. Luz e trevas, bons e maus, mocinho e bandidos. É essa a construção semiótica da Passio Christi de Gibson (nome mais apropriado para um filme em latim e aramaico – na verdade, que bobagem tudo isso, se fosse narrado em português iria causar muito mais impacto e controvérsia): no final das contas, um filme binário, típico da sessão da tarde, mas com censura de 17 anos? ...
Abraços,
(Por Rafael Viegas em FONTE extraído 17/08/07)
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