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sábado, 18 de agosto de 2007

LEVADA DA BRECA

Título Original: Bringing Up Baby/Gênero: Comédia/Duração: 102 minutos/Ano (EUA): 1938/Direção: Howard Hawks/Roteiro: Dudley Nichols e Hagar Wilde, baseado em estória de Hagar Wilde/Produção: Howard Hawks/Música: Roy Webb/Direção de Fotografia: Russell Metty/Direção de Arte: Van Nest Polglase/Figurino: Howard Greer/Edição: George Hively

A década de 30 foi uma época de adaptação para o cinema, a indústria cinematográfica estava, literalmente, aprendendo a falar. Saíam de uma era muda e ensaiavam as primeiras palavras na tela grande. Mas não foi apenas esta fase de adaptação que marcou os filmes produzidos nesta época, os anos 30 também ficaram conhecidos como a época mais exagerada e antagônica de Hollywood. Via-se ou grandes dramalhões ou comédias absurdamente insanas. Não havia um meio termo.
As pessoas iam ao cinema para ver Greta Garbo sofrendo horrores nas mãos de galãs lindíssimos, pérfidos e odiosos, tudo regado a muita lágrima, sentimentos exacerbados (vimos isso em filmes como A Dama das Camélias). Os espectadores saíam arrasados da sala de projeção, depois que, invariavelmente, a protagonista morria. Mas os diretores dos grandes estúdios eram inteligentes e providenciavam logo uma comédia bem doida e tresloucada para espairecer o público, como é o caso de Ninotchka (também com Greta Garbo) e Levada da Breca.
E de todas as comédias insanas da década de 30, Levada da Breca é a melhor e, sem dúvidas, a mais desmiolada. Põe insanidade nisso! Imagine esta história: um paleontólogo (Cary Grant) abobalhado, meio louco, obcecado por um brontossauro e prestes a se casar com uma noiva que só pensa em trabalho; uma herdeira (Katharine Hepburn) decidida, apaixonada, que fala pelos cotovelos, péssima motorista e que anda com as nádegas de fora no meio de um restaurante lotado; uma velha ricaça que sonha possuir um leopardo brasileiro (que mais se parece uma onça); um bêbado; um caçador vindo da África que imita como ninguém o rugido de um leopardo; um leopardo que adora vitrola; e um cachorro que esconde uma clavícula intercostal de dinossauros no jardim.
Pensa que acabou?
Pois ainda temos outro leopardo (esse é brabo e não gosta de ouvir música); dois trabalhadores de circo; um advogado que levou uma pedrada na cabeça; e um policial que pensa que todos estes que eu falei fazem parte de uma gang de assaltantes de bancos e manda todo mundo para o xilindró.
Ou seja, durante 102 minutos não respiramos... Porque não dá tempo! Não há intervalos entre as piadas ou diálogos. Ou seja, a prova que o cinema aprendeu a falar rapidinho, pois assistir a esse filme com legendas é uma verdadeira aula de leitura dinâmica. Diálogos afiadíssimos e muito bate boca. Não há como sintetizar esse filme senão dizendo que é uma maluquice atrás da outra, o que transforma essa comédia num verdadeiro remédio contra o mau humor. Esse é um dos filmes que participa do gênero Screwball comedy.
Vendo Cary Grant e Kate Hepburn juntos de forma tão afinada, nos faz questionar como ambos conseguiram se consagrar como atores de dramas. Katharine tem um timing excepcional para comédia e mesmo ainda jovem já provava que tinha talento suficiente para se tornar a maior atriz americana, vencedora de 4 Oscars (o recorde). [...]
Toda esta loucura, entretanto, só funciona porque foi dirigido pelo genial Howard Hawks, que como já comentei no texto sobre Os Homens preferem as Loiras, era um grande diretor que sempre só se preocupava com a diversão e era decidido a presentear o público com uma obra-prima em cada gênero (Levada da Breca é a sua contribuição na comédia).
Ao final do filme, a maior obsessão de Cary Grant, o brontossauro, desmorona e anos de estudo e pesquisa vão parar no chão. Mas como a grande crítica americana, Pauline Kael, fala "Grant acaba ficando com Hepburn, e o paleontologista nunca teve nos braços um conjunto de ossos tão bonito".[...]

( Por Saulo Sisnando em FONTE )

ERA UMA VEZ NO OESTE

Título Original: C'era una Volta il West/Gênero: Faroeste/Duração: 166 minutos/Ano (Itália / EUA): 1969/Direção: Sergio Leone/Roteiro: Sergio Donati e Sergio Leone, baseado em estória de Dario Argento, Sergio Leone e Bernardo Bertolucci/Produção: Fulvio Morsella/Música: Ennio Morricone/Fotografia: Tonino Delli Colli/Figurino: Carlo Simi/Edição: Nino Baragli



Logo após finalizar sua Trilogia dos Dólares, formada por Por um Punhado de Dólares, Por uns Dólares a Mais e Três Homens em Conflito, Sérgio Leone resgatara todo o respeito e a certeza de que os faroestes poderiam ser bons filmes, não apenas entretenimento barato. Agora almejava novos horizontes. Em sua mente já se desenhava um dos maiores clássicos policiais de todos os tempos, mas a Paramount só bancaria seu sonhado Era Uma Vez na América caso ele fizesse apenas mais um faroeste. Sérgio estava em um beco sem saída, uma vez que, na sua cabeça, já não haviam mais histórias nesse gênero para serem contadas. Mas Leone não se deixou levar pelo olhar ambicioso sobre os lucros que esse novo filme poderia gerar. Se devia ser feito, que fosse algo bom. Leone se juntou então com Sergio Donati, Bernardo Bertolucci e Dario Argento para escrever a história e o roteiro desse seu novo trabalho. Assim nasceu a obra-prima Era uma vez no Oeste.
[...] Era uma vez no Oeste é um filme muito mais plástico que os outros de Leone, um drama ambientado no Velho-Oeste. Aqui acontece uma história muito mais profunda, sem humor e com violência menos explícita que em seus outros filmes, mas essas não são necessariamente características ruins. São apenas diferentes.
[...]Outra sacada de gênio, porém dessa vez concretizada, foi que Leone conseguiu ninguém menos que Henry Fonda (de Doze Homens e uma Sentença) para fazer o vilão da história. Fonda nunca tinha feito tal papel na vida. Depois do massacre, quando a câmera gira e mostra que o responsável por aquela cruel chacina era Henry Fonda, muitas pessoas ficavam surpresas e já na expectativa do que de novo aquele filme poderia trazer. Suas lentes azuis bem fortes e a ambição de ser uma pessoa grande tornaram-se características imortais para esse cavalheiro agora na pele de um urubu seco para comer suas carniças.
O ritmo do filme é bem lento, calculado, sempre criando expectativa para o que vai acontecer a seguir e como o que está na tela irá terminar. Leone demorava horas para fazer um plano simples para poder alcançar a mais perfeita estética que estes planos poderiam gerar. Ele deixava que cada um tivesse o seu significado. Leone chegava até mesmo a controlar a quantidade de poeira que estaria em cada roupa de seus atores, e utilizou fotos de época exigindo o máximo de fidelidade de sua equipe na hora de criar a arte do filme. O resultado foram alguns planos memoráveis, como quando Claudia chega na cidade e ainda não temos uma visão do local. Apenas alguns planos da estação de trem e, quando ela atravessa essa estação, a câmera fixa por uma pequena janelinha. Após a grua levar a câmera bem alto, temos noção da dimensão da cidade que fora construída apenas para esse filme (o orçamento folgado liberado para essas construções era maior do que o orçamento inteiro gasto em Por um Punhado de Dólares).
O duelo final entre “O Gaita” e Frank é memorável. Para mim, a melhor cena do filme disparada. Desde a preparação, com a chegada de Frank e o encarar dos dois, até o "mega-hiper-ultra" close nos olhos de Charles Bronson, para representar a entrada na mente dele pelo público, tudo tem seu significado dentro da obra. Com o flashback, todo o filme ganha uma importância extra, pois conhecemos a motivação do “Gaita” e a importância de suas ações. Como drama também, pois a cena é simplesmente revoltante e nos faz pensar se teríamos a mesma calma do personagem em suas atitudes ao se confrontar com Frank.
O melhor de tudo é que cada tema tem o seu significado. “O Gaita”, por exemplo, ganha um significado cavalar quando, ao duelo final, o flashback eleva sua importância ao extremo.

[...]Uma obra de arte poética e sensível, completa como faroeste, perfeita como um filme. Acabou sendo o primeiro de uma nova trilogia imperdível, seguido por Quando Explode a Vingança e a outra obra-prima Era uma Vez na América. Seja fã de Leone ou não, este é um daqueles títulos indispensáveis para quem quer conhecer a boa história do cinema.


(Por Victor Rypl em FONTE)

CORRA, LOLA, CORRA

Título Original: Lola Rennt/Gênero: Ação/Duração: 81 minutos/Ano (Alemanha): 1998/Direção: Tom Tykwer/Roteiro: Tom Tykwer/Produção: Stefan Arndt/Música: Reinhold Heil, Johnny Klimek, Franka Potente e Tom Tykwer/Fotografia: Frank Griebe/Figurino: Monika Jacobs/Edição: Mathilde Bonnefoy


O filme “Corra Lola, Corra” pode ser considerada uma daquelas produções cinematográficas onde cada elemento tem função estrutural fundamental. Antes dos créditos iniciais, surge na tela uma carranca que logo identificamos como um pêndulo de relógio. Segue-se uma figura de um relógio monstruoso que nos abocanha. A música inspira um suspense típico de filmes de terror: acorde dissonante suspenso predominantemente no grave. Dessa forma o diretor apresenta o personagem principal da trama: o tempo. [...] Surgem os créditos onde Lola é retratada como um desenho animado em desabalada corrida enfrentando inúmeros perigos no percurso. Entre eles, um relógio monstruoso. A personagem dá socos nos créditos e alguns deles, ao acaso, transformam-se em monstros ou coisas do tipo. Uma cena de videogame com trilha sonora tecno. Vale lembrar que o Corra, Lola Corra! é uma curta história que se repete, traçando diferentes realidades, eventos e conseqüências, revelando mostrando a força do acaso em cada acontecimento da vida. A trilha então não deixa por menos: são dez músicas (parecidas entre si), mas 16 faixas porque seis delas ganharam novas versões.
Todo o filme é estruturado a partir de algumas constantes temáticas: a idéia da repetição, dos relógios, da influência do acaso, do número 20, da cor vermelha, da espiral e da relação entre gritos e vidros quebrando. Essas figuras servem como costura essencial para o filme e conferem a ele uma unidade sólida. Para falar sobre cada um desses itens e da maneira como cada um deles está manifesto no filme, vou realizar uma operação de acaso que definirá a estrutura dessa parte do trabalho[...]
REPETIÇÃO –[...] A escolha de uma trilha musical baseada em padrões repetitivos tecno que funcionam como uma espécie de substituto para os sons dos ponteiros do relógio: um fator de incremento para a tensão nos momentos de corrida. As letras das canções também trazem versos repetitivos como em Running Three (tema da terceira corrida): “I want to go/ I want to fight/ I want to rush/ I want to run/ I want to see you again/ under the setting sun/...”

GRITOS E VIDROS QUEBRANDO – [...] depois de 20 minutos de tensão ao som de uma trilha musical tecno alucinada, ocorre, inevitavelmente o momento crucial da morte de um dos protagonistas, seguida da execução de um fragmento da estática e tranqüila textura homofônica de cordas que forma a base para a obra The Unanswered Question do compositor norte-americano Charles Ives que possui relação com o silêncio depois do explodir dos vidros.
ESPIRAL - o gesto espiral permeia todo o filme. Voltando para a estrutura formal macro fórmica, temos uma estrutura circular, que acaba sendo retomada continuamente depois de transcorrido todo o seu percurso, mas que nunca é retomada como antes, como um padrão espiral. A trilha musical que acompanha Lola em suas 3 corridas é constituída de músicas que possuem a mesma estruturação formal, mas que apresentam sempre arranjos e letras diferentes, enfatizando a novidade de cada corrida apesar do início idêntico: a música é retomada mas nunca da mesma forma.
RELÓGIOS – sendo o tempo o grande protagonista, e vilão, da estória, não podiam deixar de faltar inúmeras referências a ele no decorrer da trama. [...] a trilha musical tecno é utilizada nos momentos em que Lola se encontra correndo contra o tempo, nas ruas, e cessa toda vez que surge uma situação de diálogo alheia a isso: quando se perde a noção do tempo e se faz necessário perguntar as horas para reiniciar a corrida. Existe uma relação estreita, portanto, entre o correr dos segundos no relógio e os momentos em que Lola literalmente aposta corrida com o tempo, nas ruas. Nos momentos em que o tempo pára, nos finais, cessa também o ritmo tecno, que é substituído por algo que dá a idéia de suspensão temporal: os acordes prolongados em pianissimo e a harmonia ambígua de Charles Ives, ou mesmo o simples silêncio dos momentos íntimos à cama.
Quando o filme alemão surgiu nos cinemas toda a crítica disse tratar-se de "um filme em ritmo de videoclipe" e de fato foi esse o estilo adotado pelo diretor Tom Tykwer. A história de Lola entrou para a galeria Cult, algo que os alemães não faziam há um bom tempo, e já até ganhou uma releitura para um propaganda de banco no Brasil.
Em todo bom videoclipe (e em todos os ruins também), a música faz um papel fundamental na narrativa da história e em Corra, Lola Corra! isso não é diferente. Por isso um monte de músicos bastante desconhecidos aceitaram a tarefa de criar a trilha sonora do filme.
Nem tão desconhecidos, na verdade Franka Potente, a Lola, e Tom Tykwer, o diretor, são os grandes responsáveis pelas músicas. Além deles estão diversos outros artistas do underground alemão.
As músicas foram tão integradas ao filme que quem o viu e depois ouviu o disco certamente vai ter uma sensação diferente de que não o assistiu. Vai ter vontade de sair correndo pela cidade como a protagonista da história. Os que ainda não viram também vão sentir a grande vibração que vai do techno ao trance e passa pelo rock, pelo garage e pelo elektrofunk, mas não vão sentir os "delírios" do filme como uma sensação de flashback.

(Por Valério Fidel da Costa em FONTE e também FONTE1 )