A década de 30 foi uma época de adaptação para o cinema, a indústria cinematográfica estava, literalmente, aprendendo a falar. Saíam de uma era muda e ensaiavam as primeiras palavras na tela grande. Mas não foi apenas esta fase de adaptação que marcou os filmes produzidos nesta época, os anos 30 também ficaram conhecidos como a época mais exagerada e antagônica de Hollywood. Via-se ou grandes dramalhões ou comédias absurdamente insanas. Não havia um meio termo.
As pessoas iam ao cinema para ver Greta Garbo sofrendo horrores nas mãos de galãs lindíssimos, pérfidos e odiosos, tudo regado a muita lágrima, sentimentos exacerbados (vimos isso em filmes como A Dama das Camélias). Os espectadores saíam arrasados da sala de projeção, depois que, invariavelmente, a protagonista morria. Mas os diretores dos grandes estúdios eram inteligentes e providenciavam logo uma comédia bem doida e tresloucada para espairecer o público, como é o caso de Ninotchka (também com Greta Garbo) e Levada da Breca.
E de todas as comédias insanas da década de 30, Levada da Breca é a melhor e, sem dúvidas, a mais desmiolada. Põe insanidade nisso! Imagine esta história: um paleontólogo (Cary Grant) abobalhado, meio louco, obcecado por um brontossauro e prestes a se casar com uma noiva que só pensa em trabalho; uma herdeira (Katharine Hepburn) decidida, apaixonada, que fala pelos cotovelos, péssima motorista e que anda com as nádegas de fora no meio de um restaurante lotado; uma velha ricaça que sonha possuir um leopardo brasileiro (que mais se parece uma onça); um bêbado; um caçador vindo da África que imita como ninguém o rugido de um leopardo; um leopardo que adora vitrola; e um cachorro que esconde uma clavícula intercostal de dinossauros no jardim.
Pensa que acabou?
Pois ainda temos outro leopardo (esse é brabo e não gosta de ouvir música); dois trabalhadores de circo; um advogado que levou uma pedrada na cabeça; e um policial que pensa que todos estes que eu falei fazem parte de uma gang de assaltantes de bancos e manda todo mundo para o xilindró.
Ou seja, durante 102 minutos não respiramos... Porque não dá tempo! Não há intervalos entre as piadas ou diálogos. Ou seja, a prova que o cinema aprendeu a falar rapidinho, pois assistir a esse filme com legendas é uma verdadeira aula de leitura dinâmica. Diálogos afiadíssimos e muito bate boca. Não há como sintetizar esse filme senão dizendo que é uma maluquice atrás da outra, o que transforma essa comédia num verdadeiro remédio contra o mau humor. Esse é um dos filmes que participa do gênero Screwball comedy.
Vendo Cary Grant e Kate Hepburn juntos de forma tão afinada, nos faz questionar como ambos conseguiram se consagrar como atores de dramas. Katharine tem um timing excepcional para comédia e mesmo ainda jovem já provava que tinha talento suficiente para se tornar a maior atriz americana, vencedora de 4 Oscars (o recorde). [...]
Toda esta loucura, entretanto, só funciona porque foi dirigido pelo genial Howard Hawks, que como já comentei no texto sobre Os Homens preferem as Loiras, era um grande diretor que sempre só se preocupava com a diversão e era decidido a presentear o público com uma obra-prima em cada gênero (Levada da Breca é a sua contribuição na comédia).
Ao final do filme, a maior obsessão de Cary Grant, o brontossauro, desmorona e anos de estudo e pesquisa vão parar no chão. Mas como a grande crítica americana, Pauline Kael, fala "Grant acaba ficando com Hepburn, e o paleontologista nunca teve nos braços um conjunto de ossos tão bonito".[...]
( Por Saulo Sisnando em FONTE )