Título Original: Lola Rennt/Gênero: Ação/Duração: 81 minutos/Ano (Alemanha): 1998/Direção: Tom Tykwer/Roteiro: Tom Tykwer/Produção: Stefan Arndt/Música: Reinhold Heil, Johnny Klimek, Franka Potente e Tom Tykwer/Fotografia: Frank Griebe/Figurino: Monika Jacobs/Edição: Mathilde Bonnefoy
O filme “Corra Lola, Corra” pode ser considerada uma daquelas produções cinematográficas onde cada elemento tem função estrutural fundamental. Antes dos créditos iniciais, surge na tela uma carranca que logo identificamos como um pêndulo de relógio. Segue-se uma figura de um relógio monstruoso que nos abocanha. A música inspira um suspense típico de filmes de terror: acorde dissonante suspenso predominantemente no grave. Dessa forma o diretor apresenta o personagem principal da trama: o tempo. [...] Surgem os créditos onde Lola é retratada como um desenho animado em desabalada corrida enfrentando inúmeros perigos no percurso. Entre eles, um relógio monstruoso. A personagem dá socos nos créditos e alguns deles, ao acaso, transformam-se em monstros ou coisas do tipo. Uma cena de videogame com trilha sonora tecno. Vale lembrar que o Corra, Lola Corra! é uma curta história que se repete, traçando diferentes realidades, eventos e conseqüências, revelando mostrando a força do acaso em cada acontecimento da vida. A trilha então não deixa por menos: são dez músicas (parecidas entre si), mas 16 faixas porque seis delas ganharam novas versões.
Todo o filme é estruturado a partir de algumas constantes temáticas: a idéia da repetição, dos relógios, da influência do acaso, do número 20, da cor vermelha, da espiral e da relação entre gritos e vidros quebrando. Essas figuras servem como costura essencial para o filme e conferem a ele uma unidade sólida. Para falar sobre cada um desses itens e da maneira como cada um deles está manifesto no filme, vou realizar uma operação de acaso que definirá a estrutura dessa parte do trabalho[...]
REPETIÇÃO –[...] A escolha de uma trilha musical baseada em padrões repetitivos tecno que funcionam como uma espécie de substituto para os sons dos ponteiros do relógio: um fator de incremento para a tensão nos momentos de corrida. As letras das canções também trazem versos repetitivos como em Running Three (tema da terceira corrida): “I want to go/ I want to fight/ I want to rush/ I want to run/ I want to see you again/ under the setting sun/...”
GRITOS E VIDROS QUEBRANDO – [...] depois de 20 minutos de tensão ao som de uma trilha musical tecno alucinada, ocorre, inevitavelmente o momento crucial da morte de um dos protagonistas, seguida da execução de um fragmento da estática e tranqüila textura homofônica de cordas que forma a base para a obra The Unanswered Question do compositor norte-americano Charles Ives que possui relação com o silêncio depois do explodir dos vidros.
ESPIRAL - o gesto espiral permeia todo o filme. Voltando para a estrutura formal macro fórmica, temos uma estrutura circular, que acaba sendo retomada continuamente depois de transcorrido todo o seu percurso, mas que nunca é retomada como antes, como um padrão espiral. A trilha musical que acompanha Lola em suas 3 corridas é constituída de músicas que possuem a mesma estruturação formal, mas que apresentam sempre arranjos e letras diferentes, enfatizando a novidade de cada corrida apesar do início idêntico: a música é retomada mas nunca da mesma forma.
RELÓGIOS – sendo o tempo o grande protagonista, e vilão, da estória, não podiam deixar de faltar inúmeras referências a ele no decorrer da trama. [...] a trilha musical tecno é utilizada nos momentos em que Lola se encontra correndo contra o tempo, nas ruas, e cessa toda vez que surge uma situação de diálogo alheia a isso: quando se perde a noção do tempo e se faz necessário perguntar as horas para reiniciar a corrida. Existe uma relação estreita, portanto, entre o correr dos segundos no relógio e os momentos em que Lola literalmente aposta corrida com o tempo, nas ruas. Nos momentos em que o tempo pára, nos finais, cessa também o ritmo tecno, que é substituído por algo que dá a idéia de suspensão temporal: os acordes prolongados em pianissimo e a harmonia ambígua de Charles Ives, ou mesmo o simples silêncio dos momentos íntimos à cama.
Quando o filme alemão surgiu nos cinemas toda a crítica disse tratar-se de "um filme em ritmo de videoclipe" e de fato foi esse o estilo adotado pelo diretor Tom Tykwer. A história de Lola entrou para a galeria Cult, algo que os alemães não faziam há um bom tempo, e já até ganhou uma releitura para um propaganda de banco no Brasil.
Em todo bom videoclipe (e em todos os ruins também), a música faz um papel fundamental na narrativa da história e em Corra, Lola Corra! isso não é diferente. Por isso um monte de músicos bastante desconhecidos aceitaram a tarefa de criar a trilha sonora do filme.
Nem tão desconhecidos, na verdade Franka Potente, a Lola, e Tom Tykwer, o diretor, são os grandes responsáveis pelas músicas. Além deles estão diversos outros artistas do underground alemão.
As músicas foram tão integradas ao filme que quem o viu e depois ouviu o disco certamente vai ter uma sensação diferente de que não o assistiu. Vai ter vontade de sair correndo pela cidade como a protagonista da história. Os que ainda não viram também vão sentir a grande vibração que vai do techno ao trance e passa pelo rock, pelo garage e pelo elektrofunk, mas não vão sentir os "delírios" do filme como uma sensação de flashback.
(Por Valério Fidel da Costa em FONTE e também FONTE1 )
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