Título Original: Notre Musique/Gênero: Drama/Duração: 80 minutos/Ano (França): 2004/Direção: Jean Luc Godard/Roteiro: Jean Luc Godard /Produção: Alain Sarde e Ruth Waldburger /Música: Hans Otte/Fotografia: Julien Hirsch / Direção de Arte: Anne Marie Miéville /Edição: Jean Luc Godard
Se fosse música, seria um réquiem. Mas “Nossa Música” é cinema e, além, é Godard. Esse “filme-réquiem” se divide em três partes (movimentos). A primeira, “Inferno”, apresenta os temas tratados: as guerras, pegadas sangrentas da humanidade numa estrada chamada (talvez ironicamente) “civilização”. A montagem e a voz off desse primeiro segmento lembram as “Histoire(s) du Cinéma”, revisão crítica de Godard sobre a cinematografia mundial, especialmente a norte-americana. Nas “Histoires”, cinema e política se misturam de forma não pouco lasciva e imoral, como se fossem amantes culpados. Já em “Nossa Música”, o embate é com os fatos históricos recentes, especialmente com duas características aparentemente contraditórias: uma maior “unanimidade” no discurso das nações mundiais e um acirramento dos conflitos internacionais. Godard dinamita ambas. Contra a “unanimidade” (um discurso único, pacifista e politicamente correto), Godard opõe a confusão, a dúvida, a incerteza. O fascismo é límpido e correto, a liberdade é anárquica e confusa (e quem melhor filmou isso foi Eisenstein na antológica seqüência da escadaria de Odessa). “Nossa Música” não é um filme dramático, em que os conflitos caminham logicamente para uma conclusão, após o devido clímax. É um filme-ensaio. Não é ópera, é música de câmara — com o pendor modernista de um Arnold Schönberg. Ao tratar do acirramento dos conflitos internacionais — hoje reforçada pelo painel político das nações mais poderosas do globo —, “Nossa Música” escapa do fatalismo e do jogo melodramático, que simplesmente transforma uns em mártires e outros em demônios. Contra isso, Godard consegue reencontrar uma utopia, a do perdão e da aceitação do outro. É a busca dessa utopia que marca o segundo segmento do filme, “Purgatório”, gravado em Sarajevo. Sarajevo é a cidade-síntese da tensão entre uma Europa “civilizada” e uma outra Europa em guerra. Lá estourou o estopim da Segunda Guerra Mundial, maior genocídio da história contemporânea; lá teve lugar o último grande conflito europeu do século XX, a Guerra da Bósnia. “Nossa Música” encena um congresso de escritores (do qual faz parte o próprio Godard) em que uma jornalista procura descobrir essa nova e misteriosa utopia do século XXI. Aqui se instauram todas as dúvidas e incertezas desse projeto. Aqui a História parece encontrar um beco sem saída. Porém, na última parte, “Paraíso”, Godard aponta para a possível realização dessa utopia, sem excluir suas ironias, seus descaminhos. Outro gênio do cinema, Stanley Kubrick, parecia reafirmar em suas obras que a dita “civilização” precisa da violência para seguir em frente. Não é uma escolha entre “paz” ou “guerra”, mas algo inerente ao processo civilizatório. A escolha mais correta poderia ser “estagnar” ou “evoluir”, sendo que a última opção sempre implicará em algum derramamento de sangue. Quanto mais civilizados, mais violentos, mais agressivos — e não o contrário, como se imagina. Godard não endossa a idéia de Kubrick, mas o “paraíso” de “Nossa Música” não é totalmente destituído de ironia, o que salva “Nossa Música” de ter a sisudez de algumas obras mais ressentidas e amargas do diretor, como “Detetive” e “Nouvelle Vague”. Como um bom réquiem, “Nossa Música” precisa se equilibrar entre a beleza e o respeito ao luto. Precisa proporcionar conforto e manter a lembrança do que já se tornou passado. É falar abertamente sobre o mais universal dos temas: a morte. Aquele cinema feito para os adolescentes norte-americanos (em outras palavras, a avassaladora maioria da produção mundial) parece sempre escapar desses temas tão importantes: morte e renascimento. Aquilo que termina e aquilo que permanece. Não se trata aqui da morte de um indivíduo, mas de toda uma época. “Nossa Música” é ao mesmo tempo o último filme de Godard do século XX e o primeiro filme de Godard do século XXI.
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